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  • Quebrando o Divã

O guru obscuro

Eu nunca me afeiçoei muito a gurus, apesar de ter estado em contato com vários. Alguns nem se intitulam gurus, mas se comportam como tal. Segundo Sadhguru, "um guru não é uma pessoa, é uma presença". E, para quem busca, no momento correto, essa presença se manifesta - através de nada mais nada menos que uma figura humana...

A frase de Sadhguru não poderia ser mais auspiciosa aos gurus: do ponto de vista "humano, demasiado humano", um guru enquanto presença (mas que se manifesta através de ser humano), retira do guru-homem toda sua responsabilidade em relação a outro humano-meramente-buscador.


O papel do guru não é confortável: pra que a gente possa ver para além dos véus dos condicionamentos, é necessário haver desconforto. Para que a luz seja feita, é necessário haver atrito. Até aqui tudo certo, apesar de muitas pessoas buscarem os gurus para apaziguarem seus desconfortos... A questão é: qual a dose de desconforto necessária para alguém no ponto de consciência em que ela se encontra ao encontrar o tal guru?


Em seu lugar de autoridade, um guru pode, em sua humanidade, abusar de seu intocável poder e manipular a vida de pessoas que são geralmente agradáveis, mas estão fragilizadas e que podem, facilmente, reproduzir no guru uma figura parental de salvador (nos moldes de bom pai e de boa mãe do buscador).


O guru geralmente é um empata que pode ajudar para usar quem lhes procura. Pode ser um guru propriamente dito, mas também pode ser um padre, um professor, um médico, um líder, um governante, um psicólogo, um cientista, uma indústria, um influencer, um canal de mídia...


Sai Baba foi um dos gurus que nunca "me desceu". Seu riso forçado intuitivamente me contava que eu não poderia confiar nele. O "amor incondicional" que ele anunciava era possível de ser aprendido através de uma boa quantidade de dinheiro, a qual eu nunca consegui investir já que descontos não eram passíveis de negociações em sua abarrotada agenda. Conheci uma pessoa da equipe dele que, ao saber da minha questionadora leitura em relação a ele, logo me colocou de volta em minha ignorante realidade ao exaltar os traços de beleza elevada do tal guru... até que, alguns meses depois, o escândalo com Sai Baba veio à tona. E, quando a procurei, ela optou pelo silêncio...


Não diminuo seu trabalho, pois já bebi de sua fonte: não se joga o bebê fora junto com a água do banho. Porém, é importante dar a Cesar o que é de Cesar, e não confundir ou misturar os valores divinos e elevados projetados em um humano que, apesar de criticar certos aspectos da humanidade, os reproduz.


Outro dia, uma outra "guru não guru" que sempre me foi muito querida, me tratou como "negacionista"simplesmente por divergirmos em pensamento. Todas suas teorias sobre inclusão, não dualidade ou ilusão foram por água abaixo em algumas frases que trocamos. Ela se arrependeu de ter falado comigo naquele momento, por estar em um dos seus retiros. Eu, no auge de minha humanidade, lhe sugeri que usasse daquela oportunidade para olhar pra sua própria sombra, já que se posicionou comigo como isenta de suas projeções meramente humanas. Foi o suficiente para ela me deletar das redes sociais e nunca mais nos falarmos, apesar de toda gratidão que tenho pelo tempo compartilhado com ela.


Mas ali que me caiu uma grande ficha! Que perigo se eu estivesse em fragilidade e aceitasse o lugar em que ela me colocou através de seus julgamentos com base em seus achismos pessoais. A empatia que sempre me foi demonstrada apresentava interesses pessoais por trás dos bastidores, mas eu não queria enxergar, pois também eu precisava dela para ver coisas em mim.


O que guru mais precisa fazer, assim como todos nós "humanos demasiado humanos", é olhar pra sua própria sombra e trabalhá-la... com afinco! Não apenas projetar suas ignorâncias e limitações de alguém não iluminado (já que não existe nenhum iluminado neste planeta) a um outro não iluminado. Nesse sentido, estamos todos no mesmo lugar de atrito para produção de luz.


Humanos conscientes podem e devem questionar gurus!


Na série "The Shrink Next Door", o analisando levou anos até perceber os abusos praticados e danos causados pelo psiquiatra narcisista de New York. Se quiser assistir, recomendo! Ainda que muitas pessoas tenham lhe apontando as patologias daquela relação tóxica, foram necessários muitos anos até que ele se recuperasse, voltasse a enxergar por conta própria (sem as manipulações narcisistas) e, enfim, processasse o suposto "curador".


Quando se inicia uma jornada junto com alguém (seja lá quem for), é MUITO importante estar atento a seus INSTINTOS e INTUIÇÕES.


Pode ser o melhor remédio do mundo: mas não pra você.

Pode ser o médico mais renomado do planeta: mas não pra você.

Pode ser o padre mais bondoso da paróquia: mas não pra você.

Pode ser o professor mais intelectual da escola: mas não pra você.

Pode ser o guru mais pica das galáxias: mas não pra você.


E tudo bem!


Quem quer se explorar precisa olhar e acolher as emoções advindas de rejeições, de lugares de não pertencimento, e abraçar a confiança em si mesmo e não projetá-la quem pode, por interesse ou poder, manipular a sua percepção para enxergar o errado no certo ou o certo no errado.


Crescemos e nos construimos a partir de experiências. O acerto e o erro fazem parte da aprendizagem humana, e não é isso que estou criticando aqui: em alguns momentos, mesmo sabendo que se está errado (por exemplo, ao ter relações sexuais com um guru que pede pra não contar pra ninguém, nem pro marido que faz parte da comunidade, como foi o caso da vítima do Sai Baba), ainda assim se erra pra poder APRENDER, pra trazer à consciência conteúdos que, sem o mergulho na experiência, seriam rasos.


Mas vale lembrar que a consciência está conosco o tempo todo: qual o preço a se pagar quando o corpo diz que algo está errado (enviando sinais ou sintomas), mas o ego insiste em se associar a um outro ego para obter o prazer momentâneo desejado naquele momento?


Resumindo: um guru traz atritos necessários para o nosso crescimento. O guru que se intitula "de luz" e que ignora os atritos ou os projeta em outros sem reconhecê-los em si mesmo é um guru obscuro, e desses devemos correr ou mesmo passar longe! E como reconhecê-los? Estando atento aos nossos instintos e às nossas intuições. E sabendo que o preço a ser pago por se aprofundar em experiências (que podem deixar marcas que demoram para serem curadas) foi uma ESCOLHA pessoal e intransferível. Assim evitamos o lugar de vítima, já que a jornada de crescimento pressupõe autorresponsabilidade.

O guru que habita em mim saúda o guru que habita em ti (inclusive os obscuros).

Namastê!

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