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  • Quebrando o Divã

Fugir para as montanhas: eis a saída?

Em meio a tantas incertezas vividas atualmente, os precavidos recomendam: "fujam para as montanhas!". Mas, enfim, o que isso significa?


Incertezas sempre fizeram parte da vida, apesar de termos muita, muita dificuldade em lidar com elas. Processos de mudança são desafiadores e, apesar de estarmos acostumados à familiaridade do tempo em que vivemos, enquanto espécie, já vivemos diferentes períodos, eras e realidades. Ao que tudo indica, estamos diante de um período de transição!


E mudança gera resistência, a começar pelo cérebro, que precisa de muito mais energia para se adaptar a novos movimentos. Lidar com as mudanças é desconfortável, mas foram elas que proporcionaram ajustes ao nosso cérebro, levando a humanidade ao ponto em que está hoje.


Muitos fatos indicam que estamos diante de uma fase de grande transição, apesar de questionamentos serem tidos como "conspiração". Porém, se olharmos bem de perto a tudo o que acontece hoje e ao que já aconteceu no passado (na história), estamos há algum tempo vivendo fatos conspiratórios.


Se a crise pela qual passamos terminasse HOJE, ainda assim, nada voltaria ao 'normal' da maneira como conhecíamos o 'normal'. Relações se transformaram, assim como a forma de fazer negócios, estudar, fazer compras, trabalhar, estar em contato físico com outros, e até mesmo a relação com a saúde.



Depois de mais de um ano de treinamento, fica difícil simplesmente "desprogramar" o que foi programado na base de protocolos criados para justificar nossa sobrevivência.


Numa tentativa de resistir à mudança imposta pelo meio, mudança esta que muitos vislumbram de forma negativa (com medidas que nos tolhem ainda mais a liberdade da qual jamais desfrutamos plenamente) e que alguns sequer sonham, os que estão de olho no futuro não tão promissor acreditam que comprar armas e fazer estoque de alimentos e água, assim como o isolamento em pequenas comunidades nas montanhas, onde plantar e colher o que se come, serão as saídas para um possível futuro mais livre das influências da ditadura das instituições e do Estado.


Meu intuito aqui não é criticar as possíveis alternativas de sobrevivência em meio aos cenários que se configuram (com ou sem "conspiração"), mas refletir sobre a leitura de uma possível saída, a partir de uma outra perspectiva, para esta crise que chega a todos nós.


Do ponto de vista do ego, deixar o familiar é algo extremamente ameaçador. Por isso, ele quer manter o conhecido a qualquer custo, independente de quanto deverá investir em sua empreitada. Acumular ouro, bitcoin, água, comida ou armamento são opções do ego: vibrando em emoções inferiores (incluindo o medo, mesmo que ele esteja camuflado de ira), o ego se utiliza de mecanismos de sobrevivência para se precaver e manter-se no controle de situações possivelmente incontroláveis.


Caso a "montanha" desejada seja um lugar de fuga ("fuja para as montanhas"), então essa vibração emitida e sentida pelo ego pode trazer apenas uma possível sobrevivência ao invés de uma vida vivida em sua plenitude. Na fuga, o ego obtém resultados não muito diferentes daquilo do qual ele foge, pois sua motivação se dá com base no medo da perda do controle.


Fugir não é o mesmo que buscar, ir ao encontro de.

Lembrando que a montanha pode ser uma montanha real, um novo trabalho, um novo país, uma nova casa, um novo relacionamento... ou seja, qualquer "lugar" para qual o ego foge para não lidar com o desconforto daquilo que precisa ser transmutado.


Em Inglês, existe uma expressão que diz: "the only way out is through", que significa algo como "a única saída é ATRAVÉS", representando um tipo de renascimento interno, que passa por dentro, pela escuta da voz interior no silêncio da noite da alma, antes de sair pelo lado de fora, num mundo caótico e barulhento.


Isso significa que, se o acúmulo de bens ou a mudança para a montanha externa se der no barulho do ego, o que ele estará atraindo será ainda mais barulho. Einstein já dizia: "não podemos resolver um problema utilizando o mesmo estado mental que o criou". Desta forma, a montanha também precisa ser outra...


Em termos psicológicos, a montanha é algo a ser conquistado: a nossa verdadeira consciência, partindo do ponto mais baixo (inconsciente inferior) ao ponto mais alto (supraconsciência). Assagioli, criador da Psicossíntese, também costumava escalar montanhas. Para ascender, é necessário investir muita energia, tanto física quanto psicológica (ambas com elementos de resistência, persistência, força e capacidade para lidar com o desconforto e a solidão naturais do processo de subida).



Subir requer aclimatação. Antes de se chegar ao topo de uma montanha, ao cume, é necessário enfrentar muitos conteúdos que estão no campo de sombra da consciência, incluindo um mar de medos e iras. Caso sejam estas as emoções que levam alguém às montanhas, então elas precisam ser olhadas, observadas, reconhecidas, acolhidas e integradas ao campo de consciência, caso contrário, tais emoções continuarão atraindo os mesmos padrões que levaram o fugitivo à fuga.


Se não encarado de frente, aquilo de que fugimos nos encontra de diversas formas, independente do lugar.

Se a dificuldade de adaptação à "montanha" for grande, o desejo de retorno (ao que era então conhecido) pode estragar toda a jornada. Na prática, sem um trabalho INTERNO, a montanha EXTERNA não é possível de ser conquistada.


Assim, do ponto de vista da psicologia profunda, "fugir para as montanhas" parece algo mais voltado:

  • a um estado de distanciamento e desidentificação do ego,

  • ao enfrentamento das sombras inconscientes que resistem vir à tona para que sejam banhadas em luz,

  • a um mergulho interno para um renascimento em luz de consciência, independentemente do lugar externo em que se esteja e quantos bens se possui,

  • à chegada a um lugar mais alto da consciência (supraconsciência), identificando-se com o "eu superior" ao invés do ego.


A Montanha, o Paraíso ou a Terra Prometida parecem acessíveis a um fechar de olhos: no mundo interno que, ao ser desbravado, trará elementos para melhores condições de uma nova vida na Terra, sem ignorar os aspectos de sombra que precisam ser desbravados para serem superados e integrados ao campo de consciência.


Para mais informações sobre os aspectos da consciência, leia este post.



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