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  • Quebrando o Divã

A igualdade sem alma

Hoje eu trago uma reflexão referente à personalidade sob a perspectiva da Psicossíntese, uma abordagem concebida em 1911 (anunciada em 1926 e formalizada em 1933) pelo psiquiatra italiano Roberto Assagioli, e que continua se desenvolvendo até os dias atuais.


A Psicologia se estrutura em Quatro Forças: Psicanálise, Comportamental, Humanista e Transpessoal. A Psicossíntese de Assagioli, apesar de não ser ensinada dentro da Academia, se baseia nas duas últimas e foi a única abordagem da Psicologia reconhecida como Integral por Ken Wilber. Como tal, a Psicossíntese não elimina ou ignora nada, mas integra e sintetiza. Ela busca compreender o ser humano e o meio em que este se insere: do menor (indivíduo) ao maior (cosmos), em sua totalidade.


Por Psicossíntese, nos referimos a uma Psicologia com Alma. O modelo tradicional da Psicologia, nascido de experimentos medidos e validados pela régua da ciência cartesiana, não foi suficiente para uma mente como a de Assagioli. Assim como na psicologia profunda de Jung (a quem ele se referia como irmão em suas cartas), os aspectos subjetivos e inconscientes da psique foram explorados com tanta ou maior importância que os aspectos conscientes e puramente materialistas, uma vez que somos mais inconscientes do que conscientes


A parte consciente da nossa personalidade é o eu. Um pequeno eu muitas vezes misturado com outras partes com as quais ele se identifica, no entanto, extremamente necessário para navegar na vida. Sem este 'pequeno eu', o 'Eu Maior' não se realiza.


Um dos principais legados que Assagioli deixou foi o "Diagrama do Ovo", um mapa que nos ajuda a navegar no território da nossa personalidade. De forma breve e resumida, ele se constitui (didaticamente) da seguinte forma:


1: Inconsciente Inferior {passado}

2: Inconsciente Médio (ou Subconsciente) {presente}

3: Inconsciente Superior (ou Supraconsciência) {futuro}

4: Campo de Consciência

5: Eu Consciente (ou 'eu menor', ou Ego)

6: Eu Maior (ou Eu Superior, ou Alma)

7: Inconsciente Coletivo


O eu consciente (5) se encontra dentro do campo de consciência (4), que equivale ao campo de percepção: ao se expandir ou contrair, maior ou menor a capacidade do eu consciente explorar os conteúdos da consciência.


Como podemos observar através deste diagrama, o "eu" é apenas um pequeno pontinho no mapa. A maior parte da nossa consciência é inconsciente e, para explorá-la, primeiramente precisamos reconhecer o território por onde navegamos.


O eu menor (5) se acha a parte mais importante da personalidade, mas ele não vive sozinho: ele se alimenta de todos os conteúdos da consciência e pode se identificar com alguns deles. Quando a ligação com o Eu Maior (6) acontece, o indivíduo se encontra alinhando a propósitos e valores que norteiam a vida, dando-lhe sentido e significado.


E o que isso tem a ver com a igualdade sem alma?


Este breve diagrama nos mostra como nossa personalidade é atemporal e complexa, composta por muitas partes que sequer foram reconhecidas ou exploradas, demonstrando a vasta diversidade que nos habita. Diversidade que mal temos consciência por sermos ainda tão ignorantes de nossos conteúdos inconscientes, enquanto que socialmente somos prematuramente estimulados a usar "este ou aquele rótulo", através de um pequeno e limitado "eu", por influência do meio também inconsciente.


Se ainda não sabemos como lidar com nossa extensa, complexa e inconsciente diversidade interna, que dirá lidar com a diversidade externa...


Em meio ao moralismo imposto pelo coletivismo, cujas regras se ditam de fora pra dentro numa tentativa de "corrigir" (ou direcionar) a sociedade na base de idéias que nem sempre foram compreendidas ou vivenciadas internamente pelo indivíduo, nos vemos diante de uma verdadeira cisão das nossas partes (ainda não integradas) para atender ao sistema.


Com descreve Eckhart Tolle em seu livro 'Um Novo Mundo: o despertar de uma nova consciência': "a história do comunismo, inspirado originalmente por ideias nobres, ilustra com clareza o que acontece quando as pessoas tentam alterar a realidade externa - no caso, criar um novo mundo - sem realizar nenhuma modificação prévia essencial na sua realidade interior, no seu estado de consciência".


A psicose do eu então se estabelece nesta desconexão das partes internas inconscientes. Indivíduos influenciados pelo externo, na intenção de serem ou parecerem íntegros e bons, acabam por não se explorar, o que é um prato cheio para movimentos sociais construídos na melhor das intenções, mas que se utilizam (consciente ou inconscientemente) das mesmas forças destrutivas que eles buscam combater.


"One size does not fit all": não existe um tamanho único para todos. O mundo é aquilo que é percebido de acordo com o campo de percepção de cada um, que está para além de doutrinas, ideologias ou dogmas advindos de uma massa sem alma. Quando se impõe a objetividade mecânica do coletivismo através de movimentos que ditam o "bem e o mal"a indivíduos ricos em subjetividade ainda não explorada, matamos a alma de uma natureza orgânica, que se manifesta em seu próprio tempo. Assim como uma semente, a natureza de uma consciência pode ser estimulada, porém não acelerada pelo externo.


Obviamente, como grupo, necessitamos de regras para convivência e até mesmo sobrevivência, porém chegamos a um ponto de desenvolvimento da nossa sociedade pós-moderna em que o coletivo, em sua desumana e impraticável ideia de igualdade (que tem sido confundida com "mesmice" ou "concordância inquestionável"), nos direciona a um beco sem saída. O "individual", traduzido com "egoísmo", tornou-se um lugar perigoso, quando na verdade ele se apresenta como sendo o único lugar possível de DESPERTAR.


No reino humano, neste plano 3D, não se desperta coletivamente, em massa. Somente indivíduos despertam. E isso aterroriza o coletivo, o sistema, as massas... Impor ideais de aspiração elevada (do supraconsciente) através de um totalitarismo típico de inconsciente inferior (disfarçado de paz-e-amor-para-o-bem-comum), acaba por trazer mais sombra (de inconsciência) e cisão ao invés de luz (de consciência) e união.


Quando o sistema se mostra doente e corrompido em todas as instâncias, enquanto indivíduos, precisamos olhar pra nossa própria doença, que é a desconexão: a exclusão da alma que anima a vida em sua bela, desconhecida e inegável diversidade (que sempre começa pelo lado de dentro).



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